Díade 08/05/2008
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Diante de um rosto desconhecido, já velho e cansado
a égide da santidade se desfez e apareceu o homem
com suas formas, seus riscos, suas tintas pálidas
nuns olhos ainda iguais aos de quando era jovem.
Sua vida de acasos, seus viventes morrendo de dores,
suas dores vivendo, sua vida até o ocaso.
Não havia tristeza, e ainda colhia a alegria dos homens
e sua própria, pois que seu destino era sempre
sua estrada era nunca – vive de sempre esperar
morrerá sem nunca saber o que é e onde está.
Sua vida de acasos, seus viventes morrendo de dores,
suas dores vivendo, sua vida até o ocaso.
Do que recorda vale seu coração e sua queda de anjo
para o humano leito como se vivesse tudo
pela primeira vez, como se fosse tudo verdade
e se ouvisse um chamado para o suspender da aventura da terra.
Sua vida de acasos, seus viventes morrendo de dores,
suas dores vivendo, sua vida até o ocaso.
Em sua casa, derrubados os muros, deixa ausência
no final da vida, deixa poeira que não se acaba,
um vestígio de estrela e sua descendência
para os filhos dos homens, luto por quem se esvai.
Sua vida de lembranças, suas lembranças em seus pares
todos os pares indo embora, cada ida partindo ao meio
seu coração de vivente, junto à sua metade morrente.
Forasteiros 04/05/2008
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Os homens que chegam em terra firme
depois de navegar por tempos
sentem não conhecer a amada deixada
na beira do mar, na consciência das pedras
com o vento nas ostras e as ostras a morrerem.
No momento da guerra
em que todos saíam para pelejar
nasciam novos fatos, rumores
de que havia um sussurro constante
um beijo roubado, uma declaração
de amor mal elaborada, imagens de telenovelas…
Quantas crianças não nasceram de
amores forasteiros, casos rápidos ensejados
apenas para saciar a sede de corpos febris,
mulheres amadas em tempo de guerra e paz…
De seus modos brejeiros, de seus beijos maneiros
em agradar somente a um amor da vida inteira
ficaram segredos, ficaram cantigas, lendas urbanas
que ninguém conta mais, que só lembram os trovadores.
Mas aquela que ficou, a única remanescente das ondas
queria jogar-se ao mar, queria levar seu cantar
àquele que a deixou para esquecer-se em campos de lutas
e tombar no barro da vida.
Jogou-se em águas geladas, refletindo o que o céu
contava aos amantes, num silêncio que ecoava seu coração:
tinha as estrelas sob os pés
e o oceano em suas mãos.
Ontem, ela já não sabia do que fora seu amor
se feito de castelos ou de paredes sem proteção;
hoje, lembra apenas que um dia amou
porque deseja ser feliz, mesmo com seu rosto transfigurado.
Passagem 21/04/2008
Posted by Zuza Machado in divagações.1 comment so far
Hoje foi um dia em que a música invadiu
a casa vazia.
Bateu um tambor, fez-se um compasso
descobriu-se o amor
de seus panos, fazendo-se nu
em todos os seus planos.
Hoje foi um dia em que a imagem tocou
a história da vida.
Quebraram-se os espelhos e se pode
ver além
das faces, vê-se também como é
que na verdade tudo passa.
Amanhã é um novo dia.
Juntará de tudo da memória
dos romances e
desapegos materiais
umas palavras, uma bolsa com roupas
alguns trocados e uma passagem
para um lugar onde não morrem
as crianças e seus sonhos imediatos.
Depois, juntos som e imagem,
eu faço um verso para a garota amada
para as festas noturnas e a descoberta do mundo.
Caminho para um lugar dentro
do espelho mágico, de onde vêm as vozes
que me dizem que sou mais bela do que Cinderela.
Lá, onde termina o dia, começa a eternidade.
Pinceladas 05/03/2008
Posted by Zuza Machado in visões.3 comments
Um schlaps de vermelho
mais um pouco de azul turquesa,
outro tanto de schufs de amarelo
num lápis de ponta grossa
em contorno de como-eu-vejo
e leis da física em poemas
tanto em largura como altura
dadas em detalhes e moldura.
Um vupt de branco em espesso
círculo no meio de muitos outros
schlaps vermelhos, chinps azuis
ao som de flups pretos,
rápidos e constantes
movimentos de mãos e tintas
no vento e na distância
entre o poema e a pintura.
Pequena fábula romanceada da vida real e de contos infantis 06/02/2008
Posted by Zuza Machado in histórias iluminadas.1 comment so far
Meu poema representa uma história de final feliz
um mar de sonhos encontrando terras de combates
transformando os mitos na realidade que eu quis.
Meu poema vira ficção no pêndulo do mundo
e em seu vai-e-vem eis que ama e luta, e duvida…
volta a amar, derrete-se e cava um giro profundo.
Meu poema sobe a árvore, chegar ao castelo
vira as folhas das páginas dos livros
e salva a princesa depois de um duelo.
Meu poema era “uma vez quando havia a rainha”,
fabula, e acaba quando “fomos felizes para sempre”
em terra distante, num beijo do amor que eu tinha.
Este poema deixa de ser poema quando morre a princesa
e a história de meus feitos fica tão natural, sem fantasia…
que, enfim, a fábula vira uma frase contada à roda de uma mesa.
Intuição 04/02/2008
Posted by Zuza Machado in visões.add a comment
Só conheço a linguagem da natureza
porque minhas ações são por extinto:
primatas e ingênuas — sem saber,
conheço o amor só por ver.
Só conheço a música pelo canto dos pássaros:
às vezes livre nas rodas do mundo
às vezes triste num tom profundo,
respondo uma canção somente com outra.
Romper a asa com a liberdade,
o vento com o corpo,
a alegria com a canção —
na perda dos sentidos
sou corpo na solidão.
Por isso minha linguagem,
a natureza, este instinto:
princípio rudimentar, primitivo
de voltar para onde tudo é intuição.
Precisar 31/01/2008
Posted by Zuza Machado in amor, fúria, lentidão.add a comment
Para não chorar
para não morrer
e não ser sozinho.
Que o mundo
não seja
um lugar vazio
e as pessoas
não sintam frio
nem solidão.
Que o desespero
se converta
em luzes, os olhos
em corpo, e a fúria
fique nos poros
e se converta em suor
de um mundo de cama
lentidão aos poucos
e amor para sempre.
Para que saibamos
o que diz
a palavra escrita palavra
dita palavra vista
palavra-toque
na palavra corpo
à palavra quieta.
Laivos humanos 30/01/2008
Posted by Zuza Machado in histórias iluminadas.add a comment
Quanto tenho de dizer quieto nos olhos o meu amor
e de mover gritando no corpo teu meus dedos raros
como o entendimento entre um homem e uma mulher
em tempos de guerra, tempos de ser só um cada ser…
No trabalho da lentidão do universo eu percebo
uma lembrança de igual raiz ao que nasce da terra:
há um misto de vida e morte no campo aberto onde
se cultiva os sentimentos do barro, viveres de tudo.
Qualquer passeio público é ver que tudo ao nosso lado
é uma volta, é de se dar em confiança, nunca perder seus
olhos dos olhos alheios e alhures, tendo na mira amor.
E grande compreensão há do outro na lentidão seguir
que sei poder a união dos homens com suas mulheres
deter uma guerra, calar a falsidade, e nos unir em amizade…







